Radioguide.fm

Radioguide.fm

envia ao seu amigo

Muzangala TV

Loading...

LOUCO SERÃO

GALERIA

LOUCO SERÃO

Etiquetas

configuração rato

O Mundo de Olhos Virados para Angola!

Angola é uma prioridade no radar do investimento internacional
 
 
A Ernst & Young, uma consultora internacional com conhecimento do mercado global acaba de publicar um estudo sobre a atractividade do investimento em África, o qual divulgamos nesta edição (ver página 2) e que aponta para perspectivas muito positivas relativamente à capacidade do continente captar recursos financeiros provenientes do exterior. Quisemos saber qual a percepção local da consultora global, ou seja, como vê em concreto o caso angolano. Falámos com Luís Marques, Office Managing Partner da consultora, que percorreu, com desenvoltura, tanto os aspectos que favorecem a captação de investimento directo para o nosso país como aqueles que ainda se apresentam como menos motivadores. O balanço é francamente positivo, podendo-se afirmar que Angola se encontra, de facto, na rota do investimento directo estrangeiro.


P - África vem registando um crescimento notável, acima da média mundial. Trata-se de um crescimento sustentável?


R- A convicção é que sim, pois África tem não só recursos naturais que permitem, num horizonte de longo prazo, antever que esse crescimento vai ser constante ao longo do tempo, como tem uma população ávida de consumo na qual começa a emergir uma classe média com capacidade de consumir bens e serviços que outrora não estavam ao seu alcance. Se analisarmos o que se passou nas últimas décadas e num contexto temporal mais actual verifica-se que isso é uma realidade. Há vários factores que contribuem para tal, nomeadamente a estabilização regional, com os processos de paz que vão sendo atingidos, o que é indissociável da realidade económica. Temos o exemplo de Angola que viveu, durante muitos anos, uma situação complexa do ponto de vista interno e que foi ultrapassada. O mesmo se passou com outros países do continente. Ainda há naturalmente regiões sensíveis mas a tendência aponta para que, no longo prazo, para uma estabilização. A convicção que temos, e nós enquanto firma temos investido de uma forma bastante significativa em África, é de que se trata de um investimento com retorno e um investimento com futuro.


P - Qual o papel do investimento directo estrangeiro na sustentabilidade desse crescimento?


R - O investimento directo estrangeiro permite trazer para o continente ‘know-how’ e tecnologia que aqui não existia, o que vai possibilitar que os colegas em África se possam apropriar, em alguma extensão, dessa expertise, adquirindo assim capacidade para dotar os seus países dessa expertise criando valor. Temos assistido a uma importação massiva de tecnologia, nas mais diversas vertentes, e essa tecnologia está não só a ser utilizada para dar formação às pessoas que trabalham em África, aos africanos em particular, mas também para dar-lhes toda a bagagem de que vão precisar para, dentro de um tempo considerado razoável, terem essa capacidade de criar valor e serem inventivos para dotar os seus países de maior capacidade produtiva.


P - A complementaridade do investimento estrangeiro relativamente ao autofinanciamento resultante da exploração de recursos naturais será suficiente para sustentar elevados ritmos de crescimento?


R - Por aquilo que é a nossa percepção dos diversos ‘players’ de mercado, que são também autores e co-responsáveis por esse investimento directo estrangeiro, não vejo que haja aí um problema de insuficiência. Antes pelo contrário. Há um caso que exemplifica isso neste estudo, o da General Electric (GE), que anunciou que os países onde vai mais investir em África são a Nigéria e Angola. Tive oportunidade de ouvir o CEO para África da GE dar nota disso mesmo. Bancos como o Standard Chartered dizem exactamente o mesmo. O investimento em África é de tal forma estratégico que toda a gente que está disposta a correr o risco está disposta a investir. Não creio que haja um problema de insuficiência de capital estrangeiro para que esse investimento se consiga complementar ao que referiu há pouco. Este continente tem recursos que são escassos e apetecíveis em qualquer parte do mundo. E isso atrai o investimento. Há pouco tempo estive numa conferência subordinada ao tema ‘capital markets’ onde se falava em dotar as empresas angolanas de capacidade de ir para o mercado de capitais e, de facto, o que um representante da London Stock Exchange dizia era: ‘se os recursos estão em África é para lá que nós temos de ir, é para lá que os investidores têm de ir. Não se consegue tirar os recursos, não se consegue tirar uma mina daqui e levá-la para o Reino Unido ou para os Estados Unidos’. Os recursos estão aqui, e não estou a falar só de hidrocarbonetos, estou a falar de recursos minerais, de recursos hídricos, que existem no continente. Tudo isso faz com que o investimento dure e perdure. Duvido que haja falta de investimento por insuficiência de capital e que isso constitua um problema.


P - Referiu o mercado de capitais. Admite que empresas angolanas sejam cotadas brevemente nos mercados internacionais, à semelhança do que acontece com empresas de outros países africanos?



R - Vai ser outra forma de captar investimento. Mas não sei se será brevemente.


P - A Euronext, por exemplo, vem mostrando muito interesse…


R - Há todo o interesse em que pelo menos algumas empresas angolanas, e a Sonangol estará com certeza à testa desse pelotão, sejam cotadas mas ainda há um logo caminho que as empresas angolanas têm a percorrer.


P - Um caminho para quantos anos?



R - Cinco a dez anos parece-me um horizonte realista. Isto para pôr à cotação capital, acções. O mercado da dívida parece-me muito mais perto.


P - O mercado da dívida estará a funcionar para o ano… A Comissão do Mercado de Capitais prevê um horizonte mais curto para a cotação de empresas…


R - É verdade. Admito que essa seja uma ambição genuína e que se queira percorrer esse caminho mas também o Governo tinha a ambição de ter a reforma tributária concluída em 2012. E é algo complexo mas mais simples do que estruturar o mercado de capitais e preparar empresas para ir para o mercado de capitais. E os últimos indicadores que temos quanto à reforma tributária é que talvez em 2014 as coisas estejam concluídas. O país está no bom caminho mas choca com as insuficiências que ainda vai tendo a alguns níveis e que fazem com que a derrapagem temporal exista. Há uma convicção forte de que esse é o caminho, é o caminho irreversível e que vai acontecer. Estão a ocorrer os primeiros indícios. Realizou-se a conferência que referi e que trouxe cá os representantes da London Stock Exchange - nós também estivemos representados nesse evento. A Comissão do Mercado de Capitais está activa, o sistema bancário também se está a dotar de novas ferramentas, de novas capacidades, portanto está-se a construir o que tem de ser construído para atingir esse objectivo. Mas tenho algumas dúvidas porque a transparência com que se tem que divulgar junto do mercado resultados e contas ainda obriga a que se faça um caminho. A realidade regulamentar que temos em Angola ainda é manifestamente insuficiente, estamos no processo de criação de uma ordem de revisores oficiais de contas ou de peritos contabilistas, precisamos de ter auditores devidamente registados, devemos ter uma associação que represente esses auditores. Podemos ter institutos de corporate governance. Precisamos de saber quem regula o ‘modus operandis’ das sociedades, quem supervisiona que as sociedades estão de facto a funcionar com os seus órgãos corporativos devidamente estruturados. Este caminho é essencial pois só assim poderemos transmitir confiança aos mercados para que o investidor se sinta confortável para vir investir numa bolsa em Angola. Há que criar esses mecanismos e pô-los a funcionar e sobretudo o mercado tem de percepcionar que esses mecanismos funcionam.


P - Voltando ao investimento directo estrangeiro. Falou da General Electric que está de regresso aos Estados Unidos, segundo revelam as notícias, por os diferenciais de salários entre a China e os EUA já não compensarem a ‘deslocalização’. Não perspectiva um reforço do interesse dos EUA pelo investimento em África?


R - A General Electric (GE) é um colosso mundial que opera várias áreas de negócio. Está a dar muita importância ao Oil&Gas. Não está a desenvolver a actividade de exploração, pesquisa e produção de blocos de petróleo. Está, pela tecnologia e pelo ‘know-how’ que detém, a posicionar-se de uma forma bastante significativa como prestadora de serviços ao sector petrolífero. Olha para África como um continente onde existem reservas de petróleo significativas e algumas delas ainda por explorar. E posiciona-se nos dois países que são os que apresentam, neste momento, maior capacidade produtiva, a Nigéria e Angola. Se calhar dois países percepcionados pela comunidade internacional com alguma dose de risco. Por razões diversas. Mas, como disse o CEO da GE numa conferência em que estive presente há pouco tempo na África do Sul, ‘para termos retorno do nosso investimento temos de correr riscos. Não existe retorno sem risco. Portanto, se os recursos desta nossa área de negócio estão em Angola é lá que nós temos de estar’. Os investimentos que anunciaram para Angola e Nigéria são tremendos. Existe um plano de investimento imenso – em Angola vão fazer uma plataforma enorme na zona do Soyo por causa do projecto LNG - e a GE está-se a posicionar como sendo um prestador de serviços privilegiado dessa indústria. E as licenças que o Governo anunciou fazem com que a GE antecipe que vai ter um mercado muito apetecível e que Angola esteja no radar das suas prioridades. Estão a trazer pessoas e as coisas estão a acontecer a uma velocidade vertiginosa.


P - A GE é um caso único em relação aos interesses norte-americanos?


R - A Chevron, por exemplo, anunciou mais investimentos no país. Se olharmos para a economia norte-americana e também para a economia europeia, em particular para a França, que é um dos motores da Europa, as crises que esses mercados viveram não é alheia a uma certa retracção no exterior.


P - E o Reino Unido?


R - A crise no Reino Unido é um pouco diferente pois tem uma moeda própria. Mas o Reino Unido também está a chegar a conclusão que tem que fazer algum investimento pois já percebeu que a Europa já deu o que tinha a dar. Temos a BP, que está a fazer investimentos interessantes na área petrolífera, a deslocar para cá mais pessoas, em resultado das descobertas que fez nos poços que explora. Há muitas empresas inglesas no nosso mercado.


P - A Alemanha não tem moeda própria mas uma posição de liderança na Europa. Como está a Alemanha a percepcionar o investimento em África?



R - Também está a orientar o radar para África e há sinais concretos. Temos uma empresa como a Siemens que está a ter um crescimento brutal em Angola. Também está presente no projecto LNG.


P - Mas está-me a falar de investimentos que se concentram todos na área da energia fóssil…


R - Não podemos ignorar que o Governo quer tornar o país menos dependente dos hidrocarbonetos. Mas vai continuar a ser dependente. O rácio dessa dependência poderá ser menor mas é inevitável que continue muito dependente dos hidrocarbonetos. A questão é saber se podemos aproveitar esse facto para trazer ‘know-how’ para o país e dotar a população de capacidade crítica no desempenho das suas funções. Mas se formos para o domínio das infraestruturas temos outros ‘players’.


P- Por falar noutros ‘players’: há novos investidores, oriundos dos mercados emergentes. Esses interessam-se por que sectores?


R - Temos acompanhado de perto a actividade de uma empresa que está muito ligada à construção civil, a Odebrecht, a qual também tem vindo a criar uma área de Oil & Gas. Mas a Odebrecht está em todo o lado. Olhamos para a Odebrecht como sendo uma empresa de construção civil mas a Odebrecht é um accionista de referência da Catoca. Tem em Angola 30 mil pessoas. É o exemplo de uma empresa que vem de um mercado emergente, que é o Brasil, e que está a fazer investimentos interessantes em Angola. Temos a Rússia que também está presente na indústria extractiva…


P - Mas está também presente na área financeira…


R - Sim, com o VTB, um banco. Temos ainda o caso da Índia…mas são investimentos mais pontuais. Há, no entanto, vários investimentos que estão a ser direccionados para outras áreas, mas não podemos ignorar que quando a Sonangol anuncia que vai abrir 53 ou 54 novas licenças isso significa que há ainda um potencial muito grande a explorar nessa área. Estamos a acompanhar um cliente de origem norueguesa que vai passar a ser operador de dois blocos (era mero associado) e que, se descobrir ‘ouro negro’ deixará de ser uma organização de 300 pessoas passando a reunir 3.000 pessoas.


P- Mas para além do sector do petróleo e do gás quais os outros sectores que despertam o interesse dos investidores internacionais?


R - Claramente o sector agrícola, as infraestruturas – vias de comunicação, distribuição de energia, infraestruturas hídricas, telecomunicações, redes de internet, de dados.


P - E na área industrial?


R - Há um potencial muito grande. O que me dizem alguns investidores é que é necessário ter o problema das infraestruturas resolvido. Trazer, por exemplo, manga de uma província para Luanda é mais complicado que importá-la da América do Sul e o preço ressente-se.

P - O desenvolvimento da área industrial não implica necessariamente algum proteccionismo?


R- Se o processo na área industrial for eficiente e se houver uma infraestrutura logística também ela eficiente no sentido de conseguir colocar o produto rapidamente no ponto de venda não será necessário grande proteccionismo.



P - As áreas industriais e agro-industriais suscitam interesse ao investimento estrangeiro?


R - São áreas em que não tenho notado que o investimento directo estrangeiro esteja muito forte. Se olharmos para o plano do Governo traçado para 2017 e se formos mais além e tomarmos em conta o horizonte fixado para 2025, constatamos que o processo de reindustrialização do país é muito ambicioso. O sector agrícola e agro-industrial está na primeira linha dos desígnios do Governo.


P - A exigência do montante mínimo de USD 1 milhão para o investimento privado não constitui obstáculo?


R - Qualquer equipamento, qualquer fábrica custa sempre muito mais do que isso. Coloca-se mais a questão de ter ou não um parceiro nacional ou dos custos de contexto.


P - E ao nível da repatriação de lucros existem constrangimentos na percepção do investimento estrangeiro?



R - A ideia que temos é que os investidores privados conseguem, dentro das normas vigentes, repatriar fundos.



P - A lei do investimento privado é atractiva na perspectiva da captação do investimento estrangeiro?


Tem um objectivo que considero nobre, que é dizer que o investidor privado estrangeiro se quiser vir para Angola tem de ter pelo menos USD 1 milhão mas deveria ser mais flexível para as situações de excepção desde que devidamente fundamentadas. Se o investidor estrangeiro vier criar uma pequena indústria, uma PME, que tenha menos de USD 1 milhão mas que tenha o ‘case study’ bem estruturado e que crie postos de trabalho, designadamente para angolanos, e que apresente um projecto que seja um caso de sucesso com determinadas garantias que têm de ser oferecidas, a lei deveria mostrar outra abertura. É fechada: ou tem ou não tem USD 1 milhão.

P - O vosso relatório refere que Angola foi, desde 2003 é o terceiro destino do IDE na África subsariana. Mas em 2011 e 2012 perdeu terreno…

R - O ponto de partida a que o estudo se refere coincide exactamente com o momento em que o país entrou num processo de paz. A partir de 2003 começou a entrar, de uma forma massiva, investimento directo estrangeiro. Naturalmente que a partir dos primeiros seis ou sete anos era impossível manter o mesmo ritmo e ocorre uma tendência natural de estabilização. Excepto se o país começar a dar o salto para outras áreas. Houve um investimento directo estrangeiro fortíssimo na área energética (novos poços, novas plataformas offshore, novas capacidades) e depois um arrefecimento natural. Por outro lado, houve outros países africanos que descobriram petróleo. O Gana descobriu petróleo, a Nigéria tem descoberto cada vez mais petróleo. E outros países como o Quénia, a Tanzânia, a Namíbia, a Zâmbia têm dado um ênfase muito grande à exploração dos recursos naturais. Continua a haver investimento directo estrangeiro em Angola, só que os outros países também puseram os seus trunfos em cima da mesa e abriram a sua capacidade para receber investimento directo estrangeiro.


P - Falemos do investimento inter-africano, domínio em que a África do Sul se encontra numa posição de liderança. Angola poderá passar a ter uma palavra a dizer, nomeadamente após a criação do Fundo Soberano?


Pode. Existem ainda algumas dúvidas quanto à eficácia prática do Fundo Soberano que foi constituído, com os tais USD 5 milhões. É um objectivo que se saúda. Falou-se muito do facto de esse fundo estar dotado de um montante suficiente ou se USD 5 mil milhões era pouco para aquilo que um país como Angola poderia ter alocado a esse fundo mas é um primeiro passo. A entidade e as pessoas que ficaram a gerir o fundo ficaram de elaborar um plano de investimentos que o fundo se propõe realizar, vamos aguardar que esse plano seja tornado público e seja executado. É um instrumento que está ao alcance do país para que o país se comece a internacionalizar de uma forma mais premente. Acontece que temos, independentemente do Fundo Soberano, casos que ainda revestem algum simbolismo mas que já começam a dar indicações de que isso vai acontecer. Estou-me a lembrar do grupo Refriango, que anunciou que vai ter um processo de internacionalização para Moçambique, com a instalação de uma fábrica, assim como os promotores da cerveja Cuca que começam a querer colocar a Cuca em Portugal. Começamos a ter os primeiros sinais de que alguns dos empresários do país começam a achar que Angola é pequena. E, de facto, trata-se de um país imenso com apenas 20 milhões de habitantes.


P - O investimento directo inter-africano tende a aumentar?


R - Sobretudo países como a África do Sul vão manifestar um interesse cada vez maior pelos outros mercados africanos. Aliás recebo semanalmente notas de potenciais clientes sul-africanos que nos pedem cartas-convite para visitar Angola e fazer prospecção de mercado.

P - Em que áreas?


R - Em todas as áreas: retalho, área industrial, agro-alimentar. Já não é apenas o Shoprite, já não é apenas o Standard Bank, já existem outros ‘players’ que estão a olhar para o mercado angolano de uma forma mais séria e com uma vontade forte de investir.


P - Também a Ernst & Young está a olhar para Angola de uma outra maneira, com outra intensidade?


R - Queremos continuar a reforçar e consolidar a nossa presença. Estamos em Angola desde 1957, com níveis de presença diferentes é certo, mas nunca interrompemos a presença no país. Uma empresa como a Ernst & Young é uma empresa global. Houve alguma indefinição, durante alguns anos, sobre a quem incumbia a responsabilidade de dar o primeiro passo. Se, por um lado, os sul-africanos gostariam de o ter feito havia a questão da língua. Chegou-se à conclusão que seria sob a alçada de Portugal que esse pontapé de saída deveria ser dado. Há cerca de um ano tínhamos cerca de 12 pessoas, hoje temos mais de 40. E, para nós, é importante a relação que estamos a estabelecer com as faculdades. Este ano vamos admitir entre 15 e 20 pessoas recém-licenciadas na área de economia e gestão. O que queremos é começar a ter pessoas formadas por nós, que façam a carreira connosco e que sejam angolanos.
 
 
 
 
Fonte: O PAIS