Radioguide.fm

Radioguide.fm

envia ao seu amigo

Muzangala TV

Loading...

LOUCO SERÃO

GALERIA

LOUCO SERÃO

Etiquetas

configuração rato

A Arte do Café!

A Hora do Café
 
 
 
 
Na década de 70, Angola foi o quarto maior produtor de café do mundo, com colheitas anuais na ordem das 200 mil toneladas. Hoje estima-se que a produção comercializável ronde as quatro mil toneladas. Apesar da disparidade dos números, nos últimos anos tem-se assistido a sinais que reflectem vontade em se alavancar um sector que ficou moribundo com a guerra e o êxodo rural.

O presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, sublinha o papel crucial que o Estado tem de assumir nesta matéria. E, para começar a dar vivacidade à produção do café, o responsável sugere que para os próximos anos ao nível do Orçamento Geral do Estado sejam disponibilizados 100 milhões de dólares para a produção do café no país, ao contrário dos actuais cinco milhões existentes.

Ao SOL, o responsável disse que os cinco milhões de dólares com os quais o Instituto Nacional do Café (INCA) conta para investir no sector são uma ‘gota no oceano’, quando confrontados com a carência existente. «Este valor nem chega para a reabilitação técnica dos institutos, do acompanhamento, entre outras questões carentes de resolução urgente», defende José Severino.

Para o dirigente da AIA, cada uma das províncias produtoras do ‘bago vermelho’ necessita de pelo menos 10 milhões para investir na melhoria da produção.

A aplicação de uma política de preços justa e audaz no sentido de motivar os produtores é outra das preocupações referidas pelos produtores. Neste particular, José Severino constata que o preço de um quilo de café, situado entre os 40 e os 60 kwanzas (30 e 46 cêntimos), é muito baixo e não atrai novos produtores. «O café tem de ser pago ao nível do preço da bolsa internacional. Para incentivar deve-se pagar um preço maior. Se o privado não compra, o Estado tem de comprar o café», avança.


Reabilitar lavouras


O vice-presidente da AIA, João Manuel, apoia igualmente uma maior valorização do café. «A nossa posição é que se incentive mais a produção do café e se harmonize o preço de produção porque não ajuda o produtor. A jinguba e a mandioca custam mais do que um quilo de café, o que desincentiva os investidores», compara.

O responsável crê ainda que, com vontade política, Angola pode produzir mais – embora seja difícil chegar onde já esteve nos anos 70. Uma grande parte da produção nessa década era feita em fazendas, que hoje praticamente não existem e deram lugar ao pequeno agricultor.

Neste sentido, existem vários projectos de reabilitação experimental de lavouras de café abandonadas em pequenas unidades de produção familiar.

A Organização Internacional do Café (OIC) tem acompanhado alguns desses projectos na região do Porto Aboim. Ao SOL, fonte da OIC referiu que os resultados obtidos com a instalação de 352 viveiros, a reabilitação de 7.238 hectares de terreno e a formação de cerca de 2.500 cafeicultores permitiram a produção de 1.537 toneladas de café verde. Uma experiência que serve de base para a eventual multiplicação de projectos do género.

Em Angola, do lado dos compradores e exportadores de café _nacional está a empresa Angonabeiro, que surgiu há 15 anos através do grupo português Nabeirogest, da conhecida marca de cafés Delta.

O grupo decidiu investir no país recuperando uma antiga fábrica de café no Cacuaco, em 2001, e activando a marca de café Ginga. Do café que compram aos produtores angolanos uma parte é utilizada para torrefacção, embalagem e distribuição da marca própria nacional, e a outra é exportada para Portugal.

Quanto a preços, José Carlos Beato, director da Angonabeiro, desmistifica e refere que o café, ao contrário dos outros produtos agrícolas, está cotado em bolsa e, como tal, não engana: «Para ter um quilo de café precisamos de dois quilos de mabuba, por isso já estamos nos 120 kwanzas [94 cêntimos] por quilo de café. A este valor acresce a logística, o transporte, todos os custos inerentes à produção. Depois há a mistura com outros cafés. E não é tudo para consumo interno, uma vez que exportamos».

Sobre o desenvolvimento do sector, o responsável defende que se deve primeiro olhar para o produto como uma possibilidade concreta de diversificação da economia porque o potencial existe. «Há clientes que gostam de ter um robusta do Porto Aboim, que dá um toque diferente ao café», exemplifica.

O gestor da Angonabeiro acredita «se há indústria que pode ter um papel interessante na economia angolana é, sem dúvida, o café. Mas é preciso colocar dinheiro e pessoas a trabalhar. Um plano que permita complementaridade entre a agricultura familiar, que tem de ser estimulada, e uma maior industrialização do sector».

Paulo Pombolo, governador do Uíge – província das maiores produtoras de café no país –, é da opinião que o preço do quilo de café não afugenta os investidores na área. O responsável justifica a sua afirmação com a exposição de 40 mil quilos de café durante as últimas festas daquela cidade. Ao contrário de muitos produtores, o governador afirma que os agentes económicos estão dispostos a trabalhar.


Falta de crédito e mão-de-obra envelhecida


Quanto às dificuldades, os produtores de café contactados apresentam inúmeras – desde a escassez de mão-de-obra à falta de equipamento e maquinaria. A par disso, queixam-se da falta de crédito bancário, baixo preço do café, envelhecimento da mão-de-obra e fraca adesão dos jovens ao sector.

Artur Eduardo, produtor de café há mais de duas décadas, lamenta as dificuldades que tem encontrado para ter acesso ao crédito bancário e dar outro rumo à fazenda. Com 80 hectares à sua disposição, Artur Eduardo, de 69 anos, afirma ao SOL que se registou este ano «um certo rendimento, apesar do preço estar muito aquém das expectativas» e diz que o número de produtores ultrapassa os 30 no Uíge.

Nesse sentido, o vice-presidente da AIA, José Manuel, entende que o Estado deve proporcionar material de trabalho aos produtores do café – tractores, enxadas, catanas, vestimentas, etc. Ao mesmo tempo, defende o diálogo entre Estado e agentes económicos ligados à produção do café, para constatar quais as verdadeiras necessidades.

Já José Severino insiste que se discuta os problemas ao nível dos conselhos de auscultação e concertação provinciais. «Os problemas dos cafeicultores do Kwanza-Sul não são os mesmos que os do Uíge e estes não são iguais aos de Cabinda», exemplifica.

Em comum, produtores, empresários e governantes mencionam que a fraca adesão dos jovens à prática da agricultura pode desacelerar a produção do café. E reconhecem que só com melhores condições de trabalho se poderá atrair os jovens para a actividade do campo, alavancando um sector com um potencial ainda por descobrir.
 
 
 
 
Fonte: Semanario Sol