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LOUCO SERÃO

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Descoberto palácio dos reis do Congo





As escavações arqueológicas que decorrem no Zaire, à luz do projecto “Mbanza Congo, Cidade a Desenterrar para Preservar”, têm permitido descobrir importantes estruturas, fundamentais para a certificação do valor excepcional da antiga cidade de São Salvador do Congo, no processo de candidatura a Património Mundial.

Neste momento, arqueólogos angolanos e portugueses escavam estruturas milenares, entre as quais se destaca o antigo palácio dos reis do Congo, cujos vestígios identificados vão servir para esclarecer e definir em que época foi construído, após análises laboratoriais específicas.


“Encontrámos matéria de cerâmica cravada entre as pedras que compõem o alicerce do muro da estrutura que supomos ser o tão propalado palácio dos antigos reis. Além da cerâmica, também encontrámos argamassa feita de xisto, peças de porcelana azul e um conjunto de materiais, que vão ser levados para outros estudos”, explicou a coordenadora científica do projecto.


Sónia da Silva referiu que todos os vestígios recolhidos mas escavações vão ser decisivos para a classificação de Mbanza Congo como uma das mais antigas urbanizações a nível da África sub-equatorial. “Estamos a escavar uma estrutura neste local, chamado em quicongo Tadi (dia) Bukikua (pedra virada), o que para nós pressupõe ser o antigo palácio real ou alguma estrutura adjacente ao antigo palácio, antes da mudança do rei Nvemba Nzinga para a sua residência oficial, onde hoje funciona o Museu dos Antigos Reis do Congo”, frisou.


A equipa de arqueólogos, constituída por técnicos do Museu Nacional de Arqueologia do Instituto Nacional do Património Cultural e da Universidade de Coimbra (Portugal), também está a trabalhar na escavação de um cemitério no bairro Álvaro Buta, onde já foram descobertas 11 sepulturas. 
 


Resultados animadores
 


Sónia Domingos sustenta que os resultados da primeira fase das escavações, que termina ainda este mês, são animadoras, na medida em que permitiram, além da descoberta das 11 sepulturas, um muro de 50 metros. Neste momento, decorre também o processo de limpeza dos solos, para se poder identificar todas as estruturas marcadas no seu interior e posteriormente encaminhar as ossadas removidas para laboratórios.


O governador provincial do Zaire, Joanes André, visitou as escavações com o objectivo de encorajar a equipa de especialistas a ter êxito na recolha de testemunhos materiais para o sucesso do projecto.
Sónia Domingos, que deu alguns esclarecimentos ao governador, sublinhou que as ossadas, as pulseiras de ferro e missangas encontradas nos cemitérios vão servir para determinar a tipologia de enterro usado na altura, a causa de morte, sexo, dieta alimentar e a orientação do corpo, na sua maioria virados para Norte e Sul. 


Os estudos arqueológicos têm um valioso significado histórico no contexto africano e mundial, para a definição cautelosa daquilo que vai servir de acervo histórico para a sociedade e o mundo. 
 


Formação superior  
 


Por ser um processo complexo, o Governo Provincial do Zaire tenciona enviar alguns quadros da região para a Universidade de Yaondé, Camarões, para fazerem formação superior na área da conservação. Além disso, vai ainda ser necessário formar guias turísticos, conservadores de museus e técnicos ligados ao património.


Sónia Domingos explicou que pelo facto das construções do reino terem sido feitas com materiais perecíveis, como a madeira, há poucos vestígios, que podem estar associados às estruturas do período colonial. “No reinado de Nvemba Nzinga, também conhecido como D. Afonso I, houve mais construções de carácter definitivo. Várias fontes escritas confirmam que nesse período foram construídas muitas igrejas, conventos, escolas e cemitérios”, esclareceu a arqueóloga.


As escavações permitiram verificar que a técnica de construção usada na época do Reino do Congo persiste até aos dias de hoje, o que é, do seu ponto de vista, um argumento positivo a ser usado para provar o valor excepcional como património da humanidade.


“Um destes indicadores é o Kulumbimbi, a primeira igreja construída a sul do Saara, cuja construção é feita de pedra e xisto, semelhante à estrutura que apontamos como antigo palácio. O mesmo material usado na construção do Comando da Polícia. Existem outras obras feitas com adobe e alicerces de caboco, uma cultura utilizada ainda hoje na região”, esclareceu. 


 
Plano de Gestão da Cidade
 


Terminada a primeira fase do processo de escavações, o Ministério da Cultura vai submeter ao Governo Provincial do Zaire a proposta do Plano de Gestão da Cidade. Um outro dossier elaborado à luz do projecto de inscrição de Mbanza Congo na lista do Património Mundial da Humanidade, que indica questões sobre urbanismo a nível social da população, abastecimento de água e energia, ambiente, projecto arqueológico, para que realmente a cidade seja um pólo turístico reconhecido com maior sustentabilidade patrimonial da cultura Congo.


A interacção da equipa de arqueólogos com a população de Mbanza Congo tem sido salutar, uma vez que, segundo Sónia Domingos, os novos habitantes da cidade têm contactado a equipa sempre que são encontrados vestígios associados à antiga civilização.


Daniel Pinto, arqueólogo português que faz parte da equipa de técnicos de Coimbra, realçou ao Jornal de Angola que os estudos estão a decorrer sem sobressaltos e que existe uma boa interacção entre os técnicos e a população.


“No bairro Álvaro Buta decorrem obras para construção de uma residência. Foi já cavado um tanque para o reservatório de água. Os proprietários do terreno romperam as sepulturas no local para fazerem o tanque e as ossadas estão expostas. Nesta fase, estamos a tentar perceber qual é a dimensão do cemitério e a quem pertence, se aos reis ou à população”, explicou o arqueólogo português.
 


Estudos sobre a História

 


Após os estudos, a fase seguinte consiste em perceber a data dos enterros e apurar se são autóctones da região ou não, assim como se, eventualmente, existia no local uma igreja próxima, para depois o local ser enquadrado no “Projecto Mbanza Congo, Cidade a Desenterrar para Preservar”. 
A outra questão consiste em saber qual é a ligação que tem o lugar de enterro com a história da antiga cidade de São Salvador do Congo.


“Neste momento, estamos numa fase inicial dos trabalhos e a preparar a intervenção ampla sobre o alinhamento das sepulturas para, em função disso, delinear uma estratégia prática” frisou.


Sobre a exumação dos corpos, o especialista português aventou a possibilidade do caso envolver uma série de estudos que vão exigir a presença de antropólogos físicos, para compreender “quem aqui está enterrado”. Nesta fase, referiu, ainda é complicado apurar a identidade exacta dos defuntos.




Fonte: JA